Trabalhar como caixa de um hipermercado, implica, a grande
maioria das vezes, ser-se uma ouvinte sempre pronta e uma espécie de recipiente
onde se depositam todas e quaisquer ideias (inclusive as mais absurdas.
Principalmente as mais absurdas). O dia-em-que-a-pequena-me-chocou-o-coração
foi um exemplo, infeliz, de uma dessas ideias (ou devo dizer princípios?)
absurdas.
Uma pequena acompanhava a mãe na habitual rotina das compras
de fim de dia quando, no final do ciclo do hipermercado, se dirigem ao meu
posto de trabalho. Confesso que o sorriso da garota me enterneceu e, de certa
forma, me aliviou o cansaço. Mas depressa lhe mostrei a minha expressão mais
carregada, retorquindo o sorriso com um olhar de desilusão. Do lado de fora da
loja passeavam outra mãe e filha. Sendo que a pequenita era, fisicamente,
diferente. Tratava-se de uma criança com Síndrome de Down. Igualmente humana,
visivelmente feliz e cheia de vida, como tantas outras crianças. Tudo normal
até aqui não fosse a outra pequena, a tal que me chocou o coração, num gesto
impulsivo e notoriamente cruel, chamar a atenção da mãe dizendo “Mamã olha ali
uma menina esquisita. Nunca vi. O que é que ela tem?”. O que é que ela tem.
Apeteceu-me responder pela progenitora e explicar à menina que a outra menina
não tinha nada e que, provavelmente, aceitava a diferença melhor que ela.
Exatamente por ser diferente. A mãe, claramente constrangida, respondeu que em
casa lhe explicava a doença que a menina tinha. A doença? Fiquei zonza com
tamanho desconhecimento. Pior, fiquei indisposta com a atrocidade que acabara
de ouvir.
As restantes horas de trabalho foram a debitar sobre o que
se tinha ali passado, no meu local de trabalho, sendo que eu assistira aquela
cena em primeira fila. Desejei viver noutro planeta, ou pelo menos ter a sorte
de dispor de um emprego em que não tivesse de lidar diretamente com pessoas e
com a desumanidade delas. Em que mundo vivemos onde a diferença, que nem sei se
podemos chamar de diferente a uma pessoa portadora de Down, continua a ser
repugnada e onde o ser humano exclui, à partida, uma pessoa que se apresente
fisicamente diferente do indivíduo dito normal? Síndrome de Down é apenas e só
um distúrbio genético. Sob pena desse distúrbio, as pessoas portadoras têm uma
aparência física similar e por isso se distinguem facilmente. Podem ter um
nível de aproveitamento mais baixo que o normal, mas podem também por outro
lado, ser tão ou mais sucedidas que qualquer um de nós. Certamente que a
pequena-que-me-chocou-o-coração terá um défice no que toca à aceitação de
alguém diferente. A não ser que, por milagre ou investida da mãe, o princípio
da igualdade comece a reinar antes de tudo.
Tenho para mim que “aceitar o outro como ele é” deveria ser
uma disciplina a ser lecionada na primária. Tal como é a Língua Portuguesa, a
Matemática ou o Estudo do Meio. É que antes de sermos engenheiros, professores,
psicólogos, veterinários, bailarinos ou até mesmo operadores de caixa de um
hipermercado, somos seres humanos. E como tal, não podemos viver isolados no
mundo. E para tal temos e devemos aceitar o outro seja ele como for. Diz o
velho ditado que “de pequenino que se torce o pepino”. E como todo o ditado
popular, tem um fundo de razão. Tenho para mim que a
pequena-que-me-chocou-o-coração já vai tarde. Não será aos dez anos que irá
aprender a aceitar que nem toda a gente nasce igual mas que no que toca ao
nosso lugar no mundo, estamos todos no mesmo pedestal.