Páginas

domingo, 25 de maio de 2014

Fora de campo

Falemos de coisas sérias! Hoje as notícias do dia são duas: o Real Madrid venceu a "la décima" taça da Champions e a abstenção registada em dia de Eleições Europeias. Mas enquanto quase-jornalista apetece-me falar de outra coisa: os melhores fora de campo do jogo de ontem. Na verdade, não é uma escolha muito complicada de se fazer, já não é fácil encontrar bons jogadores fora de campo. É a vida.

 Xabi Alonso, o médio que, mesmo suspenso, continua a ser o melhor do Real Madrid fora de campo.

Iker Casillas, o guarda-redes que em 2010 beijou a namorada/jornalista Sara Carbonero em direto!



quinta-feira, 27 de março de 2014

O dia-em-que-a-pequena-me-chocou-o-coração

Trabalhar como caixa de um hipermercado, implica, a grande maioria das vezes, ser-se uma ouvinte sempre pronta e uma espécie de recipiente onde se depositam todas e quaisquer ideias (inclusive as mais absurdas. Principalmente as mais absurdas). O dia-em-que-a-pequena-me-chocou-o-coração foi um exemplo, infeliz, de uma dessas ideias (ou devo dizer princípios?) absurdas.
Uma pequena acompanhava a mãe na habitual rotina das compras de fim de dia quando, no final do ciclo do hipermercado, se dirigem ao meu posto de trabalho. Confesso que o sorriso da garota me enterneceu e, de certa forma, me aliviou o cansaço. Mas depressa lhe mostrei a minha expressão mais carregada, retorquindo o sorriso com um olhar de desilusão. Do lado de fora da loja passeavam outra mãe e filha. Sendo que a pequenita era, fisicamente, diferente. Tratava-se de uma criança com Síndrome de Down. Igualmente humana, visivelmente feliz e cheia de vida, como tantas outras crianças. Tudo normal até aqui não fosse a outra pequena, a tal que me chocou o coração, num gesto impulsivo e notoriamente cruel, chamar a atenção da mãe dizendo “Mamã olha ali uma menina esquisita. Nunca vi. O que é que ela tem?”. O que é que ela tem. Apeteceu-me responder pela progenitora e explicar à menina que a outra menina não tinha nada e que, provavelmente, aceitava a diferença melhor que ela. Exatamente por ser diferente. A mãe, claramente constrangida, respondeu que em casa lhe explicava a doença que a menina tinha. A doença? Fiquei zonza com tamanho desconhecimento. Pior, fiquei indisposta com a atrocidade que acabara de ouvir.
As restantes horas de trabalho foram a debitar sobre o que se tinha ali passado, no meu local de trabalho, sendo que eu assistira aquela cena em primeira fila. Desejei viver noutro planeta, ou pelo menos ter a sorte de dispor de um emprego em que não tivesse de lidar diretamente com pessoas e com a desumanidade delas. Em que mundo vivemos onde a diferença, que nem sei se podemos chamar de diferente a uma pessoa portadora de Down, continua a ser repugnada e onde o ser humano exclui, à partida, uma pessoa que se apresente fisicamente diferente do indivíduo dito normal? Síndrome de Down é apenas e só um distúrbio genético. Sob pena desse distúrbio, as pessoas portadoras têm uma aparência física similar e por isso se distinguem facilmente. Podem ter um nível de aproveitamento mais baixo que o normal, mas podem também por outro lado, ser tão ou mais sucedidas que qualquer um de nós. Certamente que a pequena-que-me-chocou-o-coração terá um défice no que toca à aceitação de alguém diferente. A não ser que, por milagre ou investida da mãe, o princípio da igualdade comece a reinar antes de tudo.
Tenho para mim que “aceitar o outro como ele é” deveria ser uma disciplina a ser lecionada na primária. Tal como é a Língua Portuguesa, a Matemática ou o Estudo do Meio. É que antes de sermos engenheiros, professores, psicólogos, veterinários, bailarinos ou até mesmo operadores de caixa de um hipermercado, somos seres humanos. E como tal, não podemos viver isolados no mundo. E para tal temos e devemos aceitar o outro seja ele como for. Diz o velho ditado que “de pequenino que se torce o pepino”. E como todo o ditado popular, tem um fundo de razão. Tenho para mim que a pequena-que-me-chocou-o-coração já vai tarde. Não será aos dez anos que irá aprender a aceitar que nem toda a gente nasce igual mas que no que toca ao nosso lugar no mundo, estamos todos no mesmo pedestal.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

“O samba é o pai do prazer”

Não sei quando nasceu a minha paixão pelo samba. Talvez mesmo antes de nascer. Hoje, quando ouvi pela milésima vez dois gigantes da música brasileira (Seu Jorge e Caetano Veloso) juntos, no mesmo palco, a cantarem uma ode ao samba senti uma nostalgia enorme. É cara, tenho saudades desse samba. 




segunda-feira, 1 de julho de 2013

Amor, vou levar o lixo!

Estava deitada no baloiço brasileiro da varanda, quando reparo que o meu vizinho foi levar o lixo. Prontamente pensei: será que o amor é isto? Amor é ir levar o lixo? Talvez não só, mas também. 
A minha história com o amor é complicada. Eu sou complicada e portanto tudo à minha volta se torna complicado, mesmo que se trate da situação mais simples do mundo. No amor não é diferente. Um dia apaixonei-me e no dia a seguir compliquei. Conclusão: a partir desse momento nunca o "amor é uma merda" fez tanto sentido na minha vida. Contudo, não é acerca disso que eu vou falar. 
O que é o amor? A eterna questão... Amor é dormir em conchinha, amor é ir às compras para a semana, amor é fazer loucuras na praia à noite, amor é partilhar tudo com a pessoa que vale tudo na nossa vida, nomeadamente ir levar o lixo, à uma da manhã, numa noite de verão. 
Afinal, de que forma o ato de ir levar o lixo está relacionado com o amor? Está, apenas está. Sem querer ferir qualquer tipo de susceptibilidades, levar o lixo está tradicionalmente relacionado com as tarefas do sexo feminino. E, ao ver o meu vizinho a ir levar o lixo, supus que ele o tivesse feito para deixar a mulher descansar e a liberar de mais uma tarefa. Isto é amor.
 "Amor, vou levar o lixo!". No dia em que um homem mo disser, acredito não que encontrei o amor da minha vida, mas pelo menos o amor. Espero por esse dia. Quando um homem, depois de ter feito o jantar e ter arrumado a cozinha, ainda saia de casa à uma da manhã para ir levar o lixo. Nesse momento, sei que encontrei o amor.

Não se esqueçam de ir levar o lixo.




sexta-feira, 28 de junho de 2013

da sedução




"Aquelas coisitas de frango frito"

Trabalhar como caixa num hipermercado é muitas vezes um fardo e uma chatice. Mas o sorriso, ainda que forjado, tem de estar presente, bem como a atenção e a disponibilidade. É-se ouvinte sem querer e porto de desabafos quando menos se quer e se espera. E como tal, há sempre um ou outro cliente que arrancam de nós um esticar de lábios sincero e instantâneo (regra geral são os mais pequeninos). É o caso do menino que queria “aquelas coisitas de frango frito”. Num dia normal de trabalho, vejo abeirar-se do tapete das compras um metro e meio de gente a sorrir-me e a dizer “a mãe vai comprar-me o quartel dos bombeiros”. O típico. No momento a seguir oiço a mãe confidenciar-me que o pobre menino tinha ido ao hospital na sequência de um problema num joelho e que, como se tinha portado muito bem, iria alcançar o tal desejado quartel dos bombeiros. Confesso que a primeira coisa em que pensei foi na incapacidade dos pais dos dias de hoje em dizer “não!”. Quando, no auge dos meus cinco anos, ia com muito sacrifício ao Senhor Doutor, nunca tive como recompensa um brinquedo (e espero que a memória não me esteja a falhar). Chegava-me o colo da 
minha mãe durante toda a consulta e o “vês, como és forte” à saída do consultório. Tenho pena, tenho muita pena que os papás de hoje em dia se recusem a dizer não, sob pena de traumatizar a infância da criança e desta ficar com danos psicológicos para toda a vida. Pois é papás, mas ao dizerem “sim” a todo e qualquer capricho, estão a inculcar nos vossos meninos um espírito de facilidade sem qualquer sacrifício e a fazer deles futuros adolescentes, homens e mulheres um tanto ou quanto egocêntricos e mimados, que acham que tudo podem porque sempre tiveram tudo só por pedir.  Não sou mãe, ainda, e sei, porque tenho uma e irmãos mais novos, que é muito difícil dizer um “não, João”, “isso é muito caro, Ana”. Desconfio que devem ser das palavras mais complicadas de se proferir e mais complicado ainda será ver o dito beicinho desabrochar. Mas eu levei muitos “nãos” e estou aqui não estou? Tudo bem, talvez aos olhos de muitos seja a dita mimada e egocêntrica, mas isso são outros carnavais. A mamã do menino que queria “aquelas coisitas de frango frito”, é só uma num milhão. Ainda consigo ver o ar de preocupada e, ao mesmo tempo, arreliada quando me disse que o menino merecia porque se tinha portado bem. E como se não bastasse levar o quartel dos bombeiros para casa, o pequenote, ainda antes de abandonar o meu posto de trabalho, pergunta-me se “aqui têm aquelas coisitas de frango frito?”. A mãe aprontou-se a responder dizendo que eram os tão deliciosos nuggets (também sou fã, desenganem-se) e a dizer ao filhote que iam buscar com certeza, porque ele, efetivamente, merecia.

Mãe e filho terminaram a conta, pagaram e despediram-se com um “boa sorte, minha senhora”. Tudo normal até aqui, mas qual não é o meu espanto quando, ao ver o pequenote virar costas, o vejo agarrado à pernita e o joelho a ceder. A mãe numa atitude instintiva apressou-se a agarrá-lo ao colo e ele, como eu fazia no auge dos meus cinco anos, a esconder a dor no ombro da mamã. Pensei para comigo “caraças pah, o pequenote merecia mesmo o quartel dos bombeiros”. E no final de contas, desta vez, o “sim” tão certo e sempre pronto da mamã foi bem dado. Só espero que, para apaziguar a dor, o pequenote tenha tido direito “aquelas coisitas de frango frito”.