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sexta-feira, 28 de junho de 2013

"Aquelas coisitas de frango frito"

Trabalhar como caixa num hipermercado é muitas vezes um fardo e uma chatice. Mas o sorriso, ainda que forjado, tem de estar presente, bem como a atenção e a disponibilidade. É-se ouvinte sem querer e porto de desabafos quando menos se quer e se espera. E como tal, há sempre um ou outro cliente que arrancam de nós um esticar de lábios sincero e instantâneo (regra geral são os mais pequeninos). É o caso do menino que queria “aquelas coisitas de frango frito”. Num dia normal de trabalho, vejo abeirar-se do tapete das compras um metro e meio de gente a sorrir-me e a dizer “a mãe vai comprar-me o quartel dos bombeiros”. O típico. No momento a seguir oiço a mãe confidenciar-me que o pobre menino tinha ido ao hospital na sequência de um problema num joelho e que, como se tinha portado muito bem, iria alcançar o tal desejado quartel dos bombeiros. Confesso que a primeira coisa em que pensei foi na incapacidade dos pais dos dias de hoje em dizer “não!”. Quando, no auge dos meus cinco anos, ia com muito sacrifício ao Senhor Doutor, nunca tive como recompensa um brinquedo (e espero que a memória não me esteja a falhar). Chegava-me o colo da 
minha mãe durante toda a consulta e o “vês, como és forte” à saída do consultório. Tenho pena, tenho muita pena que os papás de hoje em dia se recusem a dizer não, sob pena de traumatizar a infância da criança e desta ficar com danos psicológicos para toda a vida. Pois é papás, mas ao dizerem “sim” a todo e qualquer capricho, estão a inculcar nos vossos meninos um espírito de facilidade sem qualquer sacrifício e a fazer deles futuros adolescentes, homens e mulheres um tanto ou quanto egocêntricos e mimados, que acham que tudo podem porque sempre tiveram tudo só por pedir.  Não sou mãe, ainda, e sei, porque tenho uma e irmãos mais novos, que é muito difícil dizer um “não, João”, “isso é muito caro, Ana”. Desconfio que devem ser das palavras mais complicadas de se proferir e mais complicado ainda será ver o dito beicinho desabrochar. Mas eu levei muitos “nãos” e estou aqui não estou? Tudo bem, talvez aos olhos de muitos seja a dita mimada e egocêntrica, mas isso são outros carnavais. A mamã do menino que queria “aquelas coisitas de frango frito”, é só uma num milhão. Ainda consigo ver o ar de preocupada e, ao mesmo tempo, arreliada quando me disse que o menino merecia porque se tinha portado bem. E como se não bastasse levar o quartel dos bombeiros para casa, o pequenote, ainda antes de abandonar o meu posto de trabalho, pergunta-me se “aqui têm aquelas coisitas de frango frito?”. A mãe aprontou-se a responder dizendo que eram os tão deliciosos nuggets (também sou fã, desenganem-se) e a dizer ao filhote que iam buscar com certeza, porque ele, efetivamente, merecia.

Mãe e filho terminaram a conta, pagaram e despediram-se com um “boa sorte, minha senhora”. Tudo normal até aqui, mas qual não é o meu espanto quando, ao ver o pequenote virar costas, o vejo agarrado à pernita e o joelho a ceder. A mãe numa atitude instintiva apressou-se a agarrá-lo ao colo e ele, como eu fazia no auge dos meus cinco anos, a esconder a dor no ombro da mamã. Pensei para comigo “caraças pah, o pequenote merecia mesmo o quartel dos bombeiros”. E no final de contas, desta vez, o “sim” tão certo e sempre pronto da mamã foi bem dado. Só espero que, para apaziguar a dor, o pequenote tenha tido direito “aquelas coisitas de frango frito”.


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